País perdeu R$ 485 bilhões com desastres naturais em 11 anos; verba para prevenção caiu no período

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Dados mostram perda entre 2012 e 2023 com a crescente no número de desastres. Especialistas apontam que prejuízo bilionário poderia ser evitado se governos investissem em adaptação às mudanças climáticas. Brasil perdeu R$ 485 bilhões com desastres naturais em 11 anos

Cidades debaixo d’água, casas arrastadas pelas enxurradas, cemitério de carros, pontes levadas pela água, plantações ressecadas. Os desastres naturais provocados por fatores como chuva ou seca em excesso deixam um rastro de destruição por onde passam com um custo bilionário não apenas para quem está vivendo a tragédia mas para o país de um modo geral.
Segundo o governo federal, o país perdeu R$ 485 bilhões nos últimos 11 anos.
Imagem de drone mostra ruas alagadas em bairros de Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, nesta segunda (13).
Reuters/Amanda Perobelli
Os dados são do Atlas de Desastres, que é organizado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. O valor leva em conta as perdas nacionais entre 2012 e 2023.
O montante representa prejuízos públicos e privados com a destruição de escolas, hospitais, estradas, empresas e áreas agrícolas, além dos danos materiais das pessoas, que precisam se reerguer do zero depois de tragédias como a de São Sebastião (litoral paulista), em 2022.
Prejuízo com desastres x investimentos na prevenção
Arte/g1
O valor bilionário é resultado de dois fatores:
O aumento no número de extremos anunciado por pesquisadores. Enquanto a chuva torrencial castiga o Sul, o Norte ainda tenta se recuperar da seca histórica de 2023, com impactos em todo o país.
E a falta de resposta em uma política pública de prevenção e de preparo para as mudanças.
Na contramão do que recomendam os especialistas, o levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre investimento em prevenção de desastres mostra que o valor foi caindo ao longo dos últimos anos e representa uma pequena fatia diante das perdas bilionárias. Ou seja, o país investe mais para remediar do que para prevenir.
O que os pesquisadores alertam é que o custo para prevenir o desastre teria sido bem menor do que o montante perdido se houvesse atenção às mudanças climáticas.
Em Porto Alegre, por exemplo, o montante necessário para modernizar o sistema contra enchentes, que falhou e não conseguiu conter a cheia do Guaíba, estava previsto em R$ 400 milhões.
💵 Agora, a cidade está destruída e, embora ainda não haja uma estimativa do custo para a sua reconstrução, um relatório da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fergs) dá uma ideia do tamanho da perda: apenas a região metropolitana da capital, hoje debaixo d'água, era responsável por entregar R$ 107 bilhões em produção e não se sabe quando conseguirá se reerguer.
➡️ Os estragos afetam mais de um milhão de pessoas e o governador Eduardo Leite (PSDB) disse que seria preciso um "Plano Marshall de reconstrução", referindo-se à história ajuda financeira fornecida pelos Estados Unidos para reerguer a Europa depois da Segunda Guerra Mundial.
➡️ A Fecomércio-RS divulgou um relatório que indica que os prejuízos patrimoniais às pessoas atingidas em todo o Rio Grande do Sul podem passar de R$ 1,7 bilhão.
A tragédia no Rio Grande do Sul é o evento mais caro que o país já teve. A cultura no Brasil é reativa, preferem gastar milhões em reconstrução quando poderiam gastar menos com prevenção, para que a recuperação fosse mais barata e mais fácil.
Na tragédia de 2023 no Rio Grande do Sul o prejuízo, somando as perdas para o governo e das pessoas, foi de R$ 104 milhões, segundo os dados do Atlas.
O valor se traduz em histórias como as do empresário Ismael Fonseca, que foi resgatado após dois dias ilhado em Cruzeiro do Sul. A cidade foi devastada pela força da água. Da casa dele, sobraram só as paredes.
"Sem condição nenhuma de voltar a morar aqui. Nossa casa está destruída", conta Fonseca.
E na do produtor local de gado Jorge Dienstmann, que perdeu tudo o que tinha com a enxurrada.
“Dessa vez, foi para acabar mesmo. Nada não é tão ruim que não possa piorar. Infelizmente é assim”, lamenta o criador de gado Jorge Dienstmann.
O número ainda não inclui a perda imensurável com as mortes nas tragédias. Ao longo de onze anos, mais de 2 mil pessoas morreram em desastres naturais. Além das pessoas que, feridas, tiveram a vida alterada e os animais que também morreram.
A pesquisadora do Cemaden Viviana Aguilar Munhoz, que estuda os impactos dos desastres, os prejuízos depois de um desastre não afetam apenas a região da tragédia, mas o país e o bolso de todos, como um todo.
No caso do Rio Grande do Sul, por exemplo, temos um problema com a produção de arroz, que se perdeu. O governo vai importar arroz para conter o impacto na inflação do alimento que está na mesa de todos os brasileiros. Então, todos nós perdemos quando um desastre acontece.
De bairro só sobraram ruínas em Cruzeiro do Sul
RBS TV/Reprodução
E de quem é a responsabilidade pelo prejuízo?
A chuva de grandes proporções no Rio Grande do Sul é um fenômeno natural, mas previsto. A vulnerabilidade do Sul do país para extremos envolvendo chuva é do conhecimento do governo federal desde, pelo menos, 2016. Além disso, o governo gaúcho foi avisado antes sobre o risco.
Dias antes, o Cemaden emitiu um alerta de chuva acima da média com consequências para as cidades do estado. O órgão é quem faz os alertas oficiais para a Defesa Civil.
Apesar disso, o que especialistas responsáveis pelos alertas consultados pelo g1 explicam é que uma série de falhas impediu que as pessoas fossem impactadas:
Cidades tinham pouca ou nenhuma estrutura para a Defesa Civil;
Não tinham um plano que indicasse às pessoas o que fazer e para onde ir com o alerta. Segundo o governo do Rio Grande do Sul, só 54% das cidades tinham uma estratégia.
Falta de monitoramento para o risco de desastre. Apenas 45 estavam no sistema federal e ampliar dependeria de investimento;
Falta de campanha para que as pessoas estivessem cadastradas no sistema que manda o alerta por telefone: apenas 11% da população gaúcha está inscrita.
Falhas por falta de modernização no sistema de contenção de chuva, como é o caso de Porto Alegre.
➡️ O evento extremo, como os especialistas chamam, é reflexo das mudanças climáticas causadas, principalmente, pelas emissões de gases do efeito estufa, que estão em níveis recordes. Apesar da ação da natureza, há anos, estudos alertavam os governos de que o estado estava vulnerável. As pesquisas foram incluídas no projeto do Plano Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas, que foi engavetado.
Veja a cronologia dos estudos:
2016
Em 2016, uma pesquisa apontou a vulnerabilidade do Sul do país às enxurradas. Ela foi encomendada pelo Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTIC), uma pasta do governo federal, e analisou dados de histórico de chuvas, geografia e meteorologia. A conclusão apontou que o Rio Grande do Sul precisava de atenção porque estava vulnerável às cheias.
Ou seja, nove anos antes, havia evidências de que o estado poderia ser afetado por cheias.
O pesquisador Pedro Camarinha, do Cemaden, e um dos autores do estudo, explica que a pesquisa basearia uma política pública para a mudança climática que previa obras para repensar a estrutura das áreas vulneráveis do país. No entanto, o projeto deixou de ser prioridade após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016.
Os estudos foram encomendados pelo governo federal, as mensagens científicas eram bem claras e não faltavam evidências sobre o risco no Rio Grande do Sul. Ou seja, os governos, federal, estadual e municipal, sabiam do risco, mas não houve um esforço conjunto em se preparar para que isso não acontecesse nessa dimensão.
2021
Em 2021 uma nova pesquisa, publicada por José Marengo, referência nacional em pesquisas climáticas, e que atua no Cemaden — mais uma vez, um órgão ligado ao governo — mostrava o risco no Sul do país.
Marengo publicou um mapa que mostrava a interferência da mudança climática nas chuvas e os riscos de inundações, incluindo uma previsão caso o aquecimento global atingisse 1,5°C acima das condições pré-industrial, exatamente como estamos hoje. Com isso, o risco para o Rio Grande do Sul era alto. (Veja a imagem abaixo)
Imagem mostra evolução do risco de eventos extremas com inundações com as mudanças climáticas e identifica Rio Grande do Sul como área de risco
José Marengo/Cemaden
O estudo avaliou as situações específicas das regiões metropolitanas do país e identificou como de alto risco Porto Alegre e a região do Vale do Itajaí.
"Tínhamos estudos que indicavam que o estado tinha risco com as chuvas fortes. Faltou preparo para evitar que o desastre acontecesse", comenta Marengo.
2022
Um vídeo que circula as redes sociais nos últimos dias mostra o ecólogo Marcelo Dutra da Silva, doutor em ciências e professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) alertando que suas pesquisas mostravam um aumento na precipitação (acumulado de chuva) desde 2013 e cobrando as autoridades de preparo para a situação.
"O comportamento das chuvas mudou. Eu tenho feito um levantamento e já percebi que de 2013 pra frente nós temos um acumulado de precipitação [chuvas] no mês de mais de 300 ml. A minha pergunta é: o que nós, por exemplo, na Defesa Civil, temos programado para prever essas possibilidades? Em algum momento, vamos começar a ver [inundações] em áreas em que a água não chegava com tanta frequência e vamos lembrar disso que estamos falando aqui."
Para além dos estudos, a trajetória dos eventos extremos produzidas pela base de dados do próprio governo federal mostra a evolução de ocorrências de desastres naturais, que mais que dobrou em onze anos, aumentando também o número de mortos.

Investimento e políticas públicas eram a resposta
O que os especialistas apontam é que as autoridades em nível federal, estadual e municipal sabiam do risco há anos. A questão defendida por eles é a de que era necessária uma política que levasse em conta os alertas e investimento para que ações fossem tomadas para evitar a tragédia nesta dimensão.
💵 O governo federal tem uma verba para a gestão de riscos e desastres, que prevê obras em encostas, melhorias contra enchentes, planos para momentos de risco. Esse valor é transferido aos governos e municípios para atuarem nessas frentes. Isso depende de pedido à União e precisa de algumas condições como estudos prevenção que justifiquem os valores.
Segundo o painel do Tribunal de Contas da União (TCU) o governo reservou entre 2012 e 2023 pouco mais de R$ 33 bilhões.
No entanto, apenas R$ 21 bilhões foram, de fato, destinados. Além disso, o valor vinha sendo reduzido. Em 2013, por exemplo, foram investidos R$ 3 bilhões, nos anos seguintes, mesmo com o aumento dos prejuízos, o valor não superou a marca de R$ 1,3 bilhão. (Veja o gráfico no início desta reportagem)
💵 O dinheiro também poderia vir de emendas parlamentares, por exemplo. As emedas são recursos milionários que parlamentares podem encaminhar para projetos escolhidos por eles. Na bancada gaúcha do Congresso, apenas uma parlamentar destinou, em 2024, emendas para a prevenção de desastres climáticos no Rio Grande do Sul. O valor foi de R$ 1 milhão.
Ou seja, é uma responsabilidade partilhada.
O valor é revertido em ações de prevenção como sistemas contra enchentes, projetos que permitam que às cidades resistam em caso de eventos extremos, melhorias no monitoramento, investimento em estrutura da Defesa Civil e nos alertas.
No caso de Porto Alegre, por exemplo, hidrólogos consultados pelo g1apontam que a capital foi tomada pela água pela falha no Sistema de Proteção Contra Cheias. Construído em 1970, ele não passou por manutenção recente ou modernização. Com isso, várias das bombas que deveriam impedir o alagamento tiveram que ser desligadas pelo risco de choque elétrico. O valor estimado para os ajustes que o teriam feito funcionar é de R$ 400 milhões. (Leia mais aqui)
💵 A União destinou ao Rio Grande do Sul R$ 715 milhões em onze anos, de 2012 a 2023, para obras contra desastres no Rio Grande do Sul, segundo o TCU. O valor representa não só orçamento ao estado, como a municípios gaúchos.
Segundo os dados do TCU, até agora, foram empenhados R$ 213 milhões do governo federal só em ações de Defesa Civil. Ou seja, em um período de 30 dias o governo teve de investir 30% do que investiu em mais de dez anos.
O resultado que estamos vendo é uma soma de responsabilidades que passa por mudanças na legislação ambiental, mudança da vegetação que degrada o solo, falta de investimento na prevenção na proporção da perda. A sociedade precisa cobra que os governos, em todas as esferas, para que a questão climática seja prioridade.
A tragédia anunciada não se restringe ao Rio Grande do Sul, mas inclui riscos por todo o país.
➡️ Os relatórios e estudos que citavam o Rio Grande do Sul, também apontavam, por exemplo, mudanças que deixavam vulneráveis às chuvas o litoral de São Paulo, que foi palco de uma tragédia em 2023. Em São Sebastião, um temporal devastador deixou 64 pessoas mortas, arrastadas pela chuva ou pelo deslizamento.
Além das pesquisas, o Ministério Público disse que a prefeitura havia sido alertada pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) em 2018, cinco anos antes do desastre, do risco de deslizamento.
O prejuízo para o governo com estrutura e suporte para a cidade foi de R$ 30 milhões. E o valor em perda para as pessoas e empresas afetadas pela tragédia foi de R$ 197 milhões.
Desastre em São Sebastião deixou dezenas de mortos
Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo/Arquivo
José Marengo, coordenador geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden e referência em pesquisas climáticas, aponta que há um negacionismo climático, que torna políticos céticos e reduz a importância de políticas com resposta às mudanças climáticas.
Há um certo negacionismo climático. Os governantes, as pessoas, acham que as previsões não vão acontecer. No entanto, o que estamos vendo é que as cidades não são mais resilientes a essas mudanças. Não dá para seguir com a inação e tapar os olhos para a realidade.
Travado há três anos, plano de adaptação é aprovado após tragédia no RS
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou nesta semana o projeto que estabelece diretrizes para elaboração do plano de adaptação do país à mudança do Clima. O projeto estava parado há mais de três anos no congresso.
O projeto prevê a criação do plano, que precisa assegurar a implementação de estratégias prioritariamente em três áreas:
infraestrutura urbana e direito à cidade
infraestrutura nacional, com ênfase na comunicação, energia, transportes
infraestrutura baseada na natureza
O texto prevê a criação de um fundo nacional que vai apoiar financeiramente os municípios mais vulneráveis e expostos às ameaças climáticas.
O que dizem os governos
Ministério da Ciência e Tecnologia
Perguntado sobre o monitoramento das cidades, o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC) confirmou que são apenas 45 cidades são monitoradas pelo Cemaden no Rio Grande do Sul, mas que estão previstos investimentos para a ampliação, chegando a 57. O estado tem 479 municípios.
A pasta ainda informou que monitora 1.132 municípios, onde vivem 120 milhões de pessoas no país.
Ministério do Desenvolvimento Regional
A reportagem procurou o Ministério do Desenvolvimento Regional, pasta de onde sai o maior valor para a proteção aos desastres, mas não obteve retorno até a publicação.
Governo do Rio Grande do Sul
O governo do Rio Grande do Sul disse que apenas 54% das cidades têm um plano de contingenciamento, que cria uma estrutura com o que fazer e para onde ir em caso de desastres: são 270 dos 497 municípios.
Sobre os alertas de desastres, disse que 11% da população está cadastrada nos sistemas de alerta, mas que têm feito campanhas recentes para ampliar os cadastros e implantação de um sistema que vai enviar os avisos diretamente aos celulares de quem estiver em uma área de desastre.
Na região metropolitana de Porto Alegre, foram investidos R$ 25 milhões no serviço de monitoramento de desastres.
E que após a tragédia, na semana passada, foi criado o Grupo de Avaliação do Movimento de Massa do Rio Grande do Sul (Gamma). O objetivo é que avaliem locais com risco de deslizamento, começando pelo Vale do Taquari.
Prefeitura de Porto Alegre
O g1 procurou a prefeitura de Porto Alegre sobre a manutenção do sistema que deveria proteger a cidade das cheias, e a administração municipal declarou que "refuta a afirmação de que houve falta de manutenção".
"O sistema de proteção contra cheias apresentou pontos de fragilidade. (…) O dilema não é a falta de manutenção, mas a concepção dos projetos de construção das casas de bomba e das comportas. O sistema precisa ser pensado de forma ampla", afirmou a administração em nota.
Além disso, afirmou que, nos últimos anos, foram realizadas melhorias significativas no sistema de proteção, como a aquisição de motores elétricos, chaves de partida eletrônica, comportas de vedação de aço inox e implantação de automação. "Não fossem estas melhorias, a enchente seria ainda maior", afirma a administração municipal.

Como Suécia se tornou ‘paraíso dos super-ricos’

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No mundo todo, a Suécia tem a reputação de defender impostos elevados e a igualdade social. Apesar disso, o país se tornou um 'paraíso' dos super-ricos na Europa. Konrad Bergström fez fortuna criando e vendendo empresas
MADDY SAVAGE/BBC
No mundo todo, a Suécia tem a reputação de defender impostos elevados e a igualdade social. Apesar disso, o país se tornou um “paraíso” dos super-ricos na Europa.
Na ilha de Lidingö, há diversos conjuntos de casas de madeira vermelha e amarela no topo de penhascos rochosos e grandes mansões brancas minimalistas com janelas do chão ao teto. A menos de meia hora de carro do centro da cidade de Estocolmo, este é um dos bairros mais ricos da Suécia.
O empresário Konrad Bergström acende o interruptor da luz da sua adega para revelar as 3 mil garrafas de vinho que tem armazenadas. “Bordeaux franceses, disso que eu gosto”, diz ele, abrindo um sorriso branco e brilhante.
A casa tem ainda uma piscina externa, uma academia forrada em couro de rena e uma oficina transformada em boate, que exibe um grande mictório de metal.
“Tenho muitos amigos músicos, por isso tocamos muito”, explica Bergström. Ele fez fortuna fundando empresas, incluindo uma empresa de fones de ouvido e alto-falantes, e esta casa é uma das quatro propriedades que ele possui na Suécia e na Espanha.
Não é um estilo de vida inesperado para um empresário de sucesso, mas o que pode surpreender é quantas pessoas se tornaram tão ricas como Bergström — ou até mais ricas — na Suécia, um país com uma reputação global por suas políticas públicas de esquerda.
Embora uma coligação de direita esteja atualmente no poder, a nação foi governada por governos liderados pelos social-democratas durante a maior parte do século passado, eleitos com a proposta de fazer crescer a economia de uma forma equitativa, com impostos financiando um forte estado de bem-estar social.
Mas a Suécia registrou um boom de super-ricos nas últimas três décadas.
Em 1996, havia apenas 28 pessoas no país com um património líquido de mais de 1 bilhão de kronos (a moeda sueca), o equivalente a US$ 91 milhões (R$ 465 milhões), de acordo com uma lista publicada pela antiga revista de negócios sueca Veckans Affärer. A maioria deles vinha de famílias ricas há gerações.
Já em 2021, o número de bilionários (com o patrimônio contado na moeda local) havia subido para 542, de acordo com uma análise semelhante do jornal diário Aftonbladet. Essas poucas pessoas possuíam entre elas uma riqueza equivalente à do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas) do país.
A Suécia – com uma população de apenas 10 milhões de habitantes – também tem uma das maiores proporções do mundo de bilionários (com o patrimônio contado em dólares) per capita. A Forbes listou 43 suecos com patrimônio de US$ 1 bilhão ou mais em sua lista dos mais ricos de 2024.
Isto equivale a cerca de quatro bilionários por milhão de pessoas, em comparação com cerca de dois por milhão nos EUA (que tem 813 bilionários, o maior número de qualquer nação, mas é o lar de mais de 342 milhões de pessoas).
A ilha de Lidingö é um dos bairros mais ricos da Suécia
GETTY IMAGES via BBC
“Só se percebeu o fenômeno depois que ele já tinha acontecido”, diz Andreas Cervenka, jornalista do Aftonbladet e autor do livro Greedy Sweden ("Suécia Gananciosa", em tradução livre), no qual explora a constante ascensão dos super-ricos da Suécia.
"Mas em Estocolmo, você pode ver a riqueza com seus próprios olhos e o contraste entre pessoas super-ricas em algumas áreas da capital sueca e pessoas bastante pobres em outras partes”, diz Cervenka.
Uma das razões para a ascensão dos novos super-ricos é o próspero cenário tecnológico da Suécia. O país tem a reputação de ser o Vale do Silício da Europa, tendo produzido mais de 40 startups “unicórnios” — empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão — nas últimas duas décadas.
A empresa de videochamadas Skype e o streaming de música Spotify foram fundados na Suécia, assim como as empresas de jogos King e Mojang.
Histórias de sucesso globais mais recentes incluem a start-up de tecnologia financeira Tink, que a Visa adquiriu por cerca de US$ 2 bilhões durante a pandemia, a empresa de saúde Kry e a empresa de scooters elétricas Voi.
No Epicenter — um escritório compartilhado e espaço comunitário com um gigantesco átrio de vidro — o empresário Ola Ahlvarsson relaciona esse sucesso à década de 1990. Ele diz que uma redução de impostos sobre computadores domésticos na Suécia “conectou todos nós muito mais rápido do que em outros países”.
Ele também aponta para uma forte “cultura de colaboração” no cenário das startups, com empreendedores talentosos muitas vezes tornando-se modelos e investidores para a próxima geração de empresas tecnológicas
O tamanho da Suécia também a torna um mercado de teste popular. "Se quiser testar algo, você pode — a um custo limitado e sem muito risco para a sua marca ou para o preço das suas ações — experimentar muitas coisas aqui", diz Ahlvarsson.
Políticas monetárias
O bilionário Niklas Adalberth diz que não tem interesse em jatinhos e iates
MADDY SAVAGE/BBC
Mas Cervenka argumenta que há outro ponto que merece atenção — as políticas monetárias que, segundo ele, ajudaram a transformar o país num paraíso para os super-ricos.
A Suécia teve taxas de juro muito baixas desde o início da década de 2010 até alguns anos atrás. Isto tornou barato o empréstimo de dinheiro e os suecos com dinheiro de sobra optaram muitas vezes por investir em propriedades ou em investimentos de alto risco, como startups tecnológicas, muitas das quais aumentaram de valor como resultado.
“Um dos grandes fatores que impulsionou este enorme aumento de multimilionários é que temos tido, durante vários anos, uma inflação bastante forte no valor dos ativos”, diz Cervenka.
Embora os que ganham mais na Suécia sejam tributados em mais de 50% dos seus rendimentos pessoais — uma das taxas mais elevadas da Europa — ele argumenta que sucessivos governos, de direita e de esquerda, ajustaram alguns impostos de uma forma que favorece os ricos.
O país eliminou os impostos sobre a riqueza e sobre heranças na década de 2000, e as taxas de imposto sobre lucros e dividendos (dinheiro obtido a partir de ações e pagamentos aos acionistas das empresas) são muito mais baixas do que os impostos sobre os salários.
A taxa de imposto sobre as sociedades também caiu de cerca de 30% na década de 1990 para cerca de 20% — ligeiramente inferior à média europeia.
“Você não precisa sair da Suécia se for bilionário hoje. E, na verdade, alguns bilionários estão se mudando para cá”, diz Cervenka.
Clube dos 90+: veja quem são os bilionários mais velhos do mundo
Ambiente favorável
De volta à ilha de Lidingö, Konrad Bergström concorda que a Suécia tem “um sistema fiscal muito favorável para quem está montando empresas”. Ele diz que a sua riqueza tem um impacto positivo porque os seus negócios — e casas — proporcionam emprego a outros.
"Temos uma babá, um jardineiro e uma faxineira. E isso também dá mais empregos. Portanto, não devemos esquecer como estamos construindo a sociedade”, diz ele.
Bergström salienta que os ricos empresários e capitalistas de risco suecos também estão cada vez mais reinvestindo o seu dinheiro nas chamadas startups de “impacto”, que se concentram na melhoria da sociedade ou do ambiente.
Em 2023, 74% de todo o financiamento de capital de risco para startups suecas foi destinado a empresas de impacto. Esta é a percentagem mais elevada da UE e muito acima da média europeia de 35%, segundo dados da Dealroom, que mapeia dados sobre startups.
Talvez o investidor de maior destaque do país seja Niklas Adalberth, cofundador da plataforma de pagamentos Klarna. Em 2017, ele usou US$ 130 milhões de sua fortuna para lançar a Fundação Norrsken, uma organização que apoia e investe em empresas de impacto.
“Não tenho os hábitos de um bilionário em termos de ter um iate, um jato particular ou algo assim”, diz Adalberth. "Esta é a minha receita para a felicidade."
Mas outros argumentam que a Suécia está perdendo um debate público cheio de nuances sobre a riqueza multimilionária, para além do debate sobre como os empresários estão gastando as suas fortunas.
Uma pesquisa recente da Universidade de Örebro concluiu que a imagem midiática dos multimilionários suecos é predominantemente positiva e sugeriu que a sua fortuna raramente é explicada no contexto das mudanças nas políticas econômicas do país.
“Enquanto os super-ricos forem vistos como a encarnação dos ideais da era neoliberal, como o trabalho árduo, tomada de riscos e uma atitude empreendedora, a desigualdade por detrás disto não será questionada”, afirma o pesquisador de comunicação social Axel Vikström.
Cervenka acrescenta que os debates sobre a tributação dos super-ricos não são tão pronunciados na Suécia como são em muitos outros países ocidentais, como os EUA.
"Isso é uma espécie de paradoxo. Alguém poderia pensar que com a nossa formação — sendo percebido como um país socialista — isso seria o mais importante", diz o autor. “Acho que tem a ver com [o fato] de que nos tornamos mais uma mentalidade de ‘o vencedor leva tudo’".
"Que, se você jogar bem as cartas, também poderá se tornar um bilionário… E isso é uma mudança bastante significativa, eu acho, na mentalidade sueca."
A lista dos ricos da Suécia também revela que a riqueza do país continua em grande parte concentrada nas mãos de homens brancos, apesar da grande população imigrante do país e de décadas de políticas que defendem a igualdade de género.
"Sim, é onde as pessoas podem criar novo dinheiro, criar nova riqueza, mas ainda é muito fechado e há diferentes pesos e medidas em termos de quem recebe o financiamento das suas ideias", diz Lola Akinmade, romancista e empreendedora nigeriana-sueca.
“A Suécia é um país incrível que é líder em muitos aspectos, mas ainda há muitas pessoas excluídas do sistema.”

Chuvas no RS: produtores lançam campanha integrada para motivar a compra do vinho gaúcho

Influenciadores de finanças: veja como escolher os melhores e como confiar neles
Nova ação engloba representantes de cerca de 100 empresas e mais de 10 mil produtores de uva. Mercado vinícola tem desafios logísticos à frente, com o fechamento do aeroporto de Porto Alegre e com os danos em estradas impactadas pelos deslizamentos de terra. Selo verde lançado pela campanha do Consevitis-RS serve para destacar o vinho gaúcho na gôndola dos supermercados
Divulgação/Circle Lab
O Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) lançou nesta segunda-feira (20) uma campanha integrada de apoio aos produtores de vinho, suco de uva e derivados do Rio Grande do Sul.
O estado ainda sofre com alagamentos e as consequências das fortes chuvas neste mês, que causaram a morte de 157 pessoas, além de milhares de desabrigados. Os efeitos na economia do estado ainda são calculados com dificuldade em meio à tragédia.
A nova ação em prol do vinho gaúcho engloba os representantes de cerca de 100 empresas associadas entre a União Brasileira De Vitivinicultura (Uvibra), Associação Gaúcha De Vinicultores (AGAVI) e Federação das Cooperativas Vinícolas do Rio Grande do Sul (Fecovinho). Pela Associação da Comissão Interestadual da Uva (ACIU), são 23 sindicatos, com mais de 10 mil produtores de uva.
A campanha do Consevitis-RS procura dar destaque ao produto com um selo que identifica o vinho gaúcho nas gôndolas de lojas e supermercados. Serão impressas 500 mil unidades no primeiro momento da campanha.
Junto com os selos, será lançada também uma campanha digital, por meio das hashtags #CompreVinhoGaucho e #AjudeRS.
“Ainda estamos vivendo as consequências da catástrofe, e muitos produtores foram fortemente impactados. Além de continuar com o acolhimento a todos os que foram atingidos, para que haja reconstrução precisamos movimentar a economia. E valorizar os produtos gaúchos também é uma das formas de prestar esse apoio”, diz em nota Luciano Rebellatto, presidente do Consevitis-RS.
As primeiras campanhas que surgiram, de produtores e revendedores do Rio Grande do Sul, foram pulverizadas para incentivar a compra de vinho gaúcho — seja em benefício do próprio setor, seja para ajudar regiões afetadas pelas cheias.
Como mostrou o g1 na semana passada, a região da Serra Gaúcha foi a mais afetada, com vinhedos alagados e deslizamentos de terra que destruíram as videiras.
Dados preliminares da Emater/RS-ASCAR, instituição de assistência técnica a produtores, dão conta de que foram destruídos ao menos 500 hectares de vinhedos. Os danos podem chegar a algo perto de 2% dos cerca de 44 mil hectares ativos no estado.
Além das perdas nos vinhedos, empresas que tinham pontos de apoio logístico em áreas alagadas tiveram prejuízos pontuais de estoque.
Outro desafio dos produtores nos próximos meses será o escoamento da produção, já que o aeroporto de Porto Alegre está inoperante e ainda há bloqueios em estradas do estado. Esses dois fatores prejudicam, também, o turismo na região.
Segundo o Consevitis-RS, o Complexo Econômico da Uva e Derivados representa cerca de 2% do PIB do estado do Rio Grande do Sul, com atividade vinda de 550 vinícolas e cooperativas.
Temporais no RS alagam vinhedos na Serra Gaúcha: 'Nem imagino o estrago', diz produtor

Mercado eleva estimativa de inflação para 2024 e vê Selic em 10% no fim deste ano, diz relatório

Nova projeção de economistas é de corte menor dos juros. Na estimativa anterior feita pelo mercado, Selic fecharia ano com corte maior, em 9,75%. Números foram divulgados pelo BC. Copom avalia que cenário para inflação se tornou mais desafiador
Economistas do mercado financeiro elevaram as estimativas de inflação para este e para o próximo ano, e também passaram a projetar um corte de juros menor em 2024.
Para o fechamento de 2024, a projeção do mercado para o juro básico da economia avançou de 9,75% para 10% ao ano. Isso quer dizer que o mercado estima um corte menor de juros neste ano.
As previsões constam no relatório "Focus", divulgado nesta segunda-feira (20) pelo Banco Central. O levantamento ouviu mais de 100 instituições financeiras, na semana passada, sobre as projeções para a economia.
Quanto maior a inflação, menor é o poder de compra das pessoas, principalmente das que recebem salários menores. Isso porque os preços dos produtos aumentam, sem que o salário acompanhe esse crescimento.
Para a inflação deste ano, os analistas dos bancos subiram a expectativa de inflação, de 3,76% para 3,80%.
Com isso, a expectativa dos analistas para a inflação de 2024 se mantém acima da meta central de inflação, mas abaixo do teto definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
A meta central de inflação é de 3% neste ano, e será considerada formalmente cumprida se o índice oscilar entre 1,5% e 4,5% neste ano.
Para 2025, a estimativa de inflação avançou de 3,66% para 3,74% na última semana. No próximo ano, a meta de inflação é de 3% e será considerada cumprida se oscilar entre 1,5% e 4,5%.
Para definir a taxa básica de juros e tentar conter a alta dos preços, o BC já está mirando, neste momento, na meta do ano que vem, e também em 12 meses até meados de 2025.
Copom e enchentes no sul
O aumento nas estimativas de inflação aconteceu após o Comitê de Política Monetária (Copom) ter baixado a taxa básica de juros de 10,75% para 10,5% ao ano no começo deste mês.
A decisão foi dividida. Os quatro diretores indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva votaram por um corte maior nos juros, de 0,5 ponto percentual, para 10,25% ao ano. Mas foram voto vencido. Quatro diretores mais antigos e o presidente do BC, formando uma maioria, optaram por uma redução menor na taxa Selic.
O "racha" no Copom teve efeito no mercado financeiro no dia seguinte. A bolsa de valores caiu, enquanto o dólar e os juros futuros avançaram.
O temor do mercado é que a diretoria do BC indicada pelo presidente Lula — com maioria no Copom a partir de 2026 –, possa ter mais leniente com a inflação em busca de um ritmo maior de crescimento da economia.
Além do racha no Copom, outro fator que tem influenciado o comportamento da inflação, segundo o Ministério da Fazenda, é o efeito das enchentes no Rio Grande do Sul.
Para definir o nível da taxa Selic, o Banco Central trabalha com o sistema de metas de inflação. Se as estimativas para o comportamento dos preços estão em linha com as metas pré-definidas, pode reduzir a taxa. Se as previsões de inflação começam a subir, pode optar por manter ou subir os juros.
Produto Interno Bruto
Para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2024, a projeção do mercado caiu de de 2,09% para 2,05%.
O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país. O indicador serve para medir a evolução da economia.
Já para 2025, a previsão de alta do PIB do mercado financeiro ficou estável em 2%.
Taxa de juros
Os economistas do mercado financeiro elevaram a estimativa para a taxa básica de juros da economia brasileira para o final deste ano.
Atualmente, a taxa Selic está em 10,50% ao ano, após sete reduções seguidas promovidas pelo Banco Central.
Para o fechamento de 2024, a projeção do mercado para o juro básico da economia avançou de 9,75% para 10% ao ano. Isso quer dizer que o mercado estima um corte menor de juros neste ano.
Para o fim de 2025, por sua vez, o mercado financeiro manteve a projeção estável em 9% ao ano.
Outras estimativas
Veja abaixo outras estimativas do mercado financeiro, segundo o BC:
Dólar: a projeção para a taxa de câmbio para o fim de 2024 subiu de R$ 5 para R$ 5,04. Para o fim de 2025, a estimativa continuou em R$ 5,05.
Balança comercial: para o saldo da balança comercial (resultado do total de exportações menos as importações), a projeção subiu de US$ 80 bilhões para US$ 82 bilhões de superávit em 2024. Para 2025, a expectativa para o saldo positivo avançou de US$ 76,2 bilhões para US$ 76,3 bilhões.
Investimento estrangeiro: a previsão do relatório para a entrada de investimentos estrangeiros diretos no Brasil neste ano subiu de US$ 69,5 bilhões para US$ 70 bilhões de ingresso. Para 2025, a estimativa de ingresso avançou de US$ 73 bilhões para US$ 73,5 bilhões.

Influenciadores de finanças: veja como escolher os melhores e como confiar neles

Influenciadores de finanças: veja como escolher os melhores e como confiar neles
Episódio do podcast Educação Financeira discutiu as melhores práticas para que o investidor não confunda recomendação com publicidade e não erre ao seguir as sugestões de um ‘finfluencer’. Conforme a Ambima, o Brasil tem 534 influenciadores de finanças
DC Studio/Freepik
Jogo do Tigrinho, rifas online ou investimentos milagrosos. Quando se vê um influenciador de finanças divulgando formas muito fáceis de ganhar dinheiro, é melhor desconfiar.
Para mitigar o impacto dos falsos “finfluencers” — como se chamam os produtores de conteúdo do setor — , a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) lançaram, em setembro de 2023, normas para a contratação de criadores de conteúdo por instituições financeiras.
Com a regulamentação, os finfluencers são obrigados, por exemplo, a informar em suas redes sociais caso façam uma publicação patrocinada.
Além disso, as entidades recomendam que criadores de conteúdo financeiro passem a tirar certificações de analistas de investimento, como a CEA (Certificação Anbima de Especialistas em Investimento) e o CNPI (Certificado Nacional do Profissional de Investimento).
Mas como saber se o influenciador é idôneo ou não?
O episódio do Educação Financeira desta semana entrevistou Amanda Brum, gerente executiva de Comunicação com Associados da Anbima, para dar dicas de como escolher um bom influenciador e o que observar para saber se o trabalho é bem feito.
Pelo lado dos influenciadores, o podcast convidou Eduardo Feldberg, do canal Primo Pobre, para contar sobre as melhores práticas que os criadores deveriam adotar para manter a confiança do público que atingem.
OUÇA O PODCAST ABAIXO:
Como desconfiar do influenciador de finanças
Para os especialistas ouvidos pelo g1, os investidores precisam adotar três regras:
Desconfiar de investimentos milagrosos, com rendimento alto em pouco tempo
Uma das promessas mais comuns é o famoso “aprenda a ganhar R$1 milhão em pouco tempo”. A isca é o sonho de se tornar milionário.
Mas, em geral, uma rentabilidade que chegue na casa do milhão rapidamente não existe. Promessas como essa são sinônimos de golpe.
“Se a esmola é grande, o santo desconfia. Se você estiver seguindo um influenciador que está te prometendo mundos e fundos, acenda o sinal de alerta, busque entender quem é aquela pessoa que está falando com você“, declara Amanda Brum, da Anbima.
Assim, é recomendado procurar o nome do influenciador na internet e verificar se ele é conhecido. Aprofundando um pouco, é bom ver se ele possui processos judiciais, número baixo de seguidores, ou se faz poucas postagens em suas redes sociais, por exemplo.
Há casos também de gente grande que dá golpe em seguidores. Lembre aqui o caso de Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como Faraó dos Bitcoins.
Evitar quem anuncie jogos de azar
A planejadora financeira Carol Stange alerta que um bom influenciador não deve promover ou divulgar jogos de azar.
Os cassinos online e outros jogos pouco transparentes podem levar os seguidores a perdas significativas, além de serem contra os princípios éticos dos profissionais da educação financeira.
“Como influenciadores, temos a responsabilidade de orientar nossos seguidores na construção de uma vida financeira sólida e sustentável, baseada em princípios de planejamento, economia e investimento responsável”, diz Carol.
“Eu considero que a divulgação de jogos de azar por influenciadores de finanças é inaceitável e contraproducente para o bem-estar financeiro da população”, alega.
Além disso, a especialista afirma que as apostas não garantem nenhum retorno financeiro, onde as chances de sucesso são baixas e a “perda total do capital investido é um risco frequente”. Pior ainda se o influenciador falar que o jogo pode ser uma “renda extra”.
Preferir recomendações de quem possui certificação — tendo em mente que anúncio são publicitários
Certificados emitidos por instituições como a Anbima e a Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais) permitem com que profissionais atuem no mercado financeiro.
A Anbima produz as principais certificações:
Certificado Profissional Anbima (CPA-10 e CPA-20): é obrigatória para funcionários de órgãos financeiros trabalharem na venda ou prospecção de produtos de investimento.
Certificado de Especialista em Investimento Anbima (CEA): Além de ganharem o selo CPA -10 e CPA -20, profissionais com CEA podem trabalhar como especialistas em investimentos.
Certificação de Gestores Anbima (CGA): Requisitada para pessoas que desejam ocupar um cargo de gestor profissional de recursos de terceiros junto a CVM.
Para consultar se o profissional possui certificações ANBIMA é necessário pesquisar no site da instituição o nome ou CPF da pessoa que deseja consultar.
Outras instituições também emitem certidões que permite a atuação no mercado financeiro, como a CNPI, da Apimec, a CFA, da CFA Society Brazil, a PQO (da B3 e Ancord), CFP, da Planejar, e a AI, da Ancord.
Mas é fundamental lembrar: influenciadores podem fazer parcerias pagas para vender produtos financeiros. Isso significa que, o que ele anuncia, pode não ser o ideal para o investidor.
Melhores práticas para finfluencers
A Anbima lançou em abril deste ano o “Tá na Rede”, manual online que reúne as melhores práticas que um influenciador de finanças precisa seguir para fazer publicidade sobre investimentos e produzir conteúdo na internet.
Além disso, o site indica cursos, princípios éticos e onde podem encontrar fontes confiáveis para ajudar na produção de conteúdo.
As principais recomendações são:
Deixar claro quando o conteúdo produzido for uma publicidade;
Não apresentar produtos com promessas inalcançáveis e não se comunicar de forma exagerada e apelativa;
Ao informar a rentabilidade de um produto, explique se o valor possui desconto de impostos;
Sempre informar para os seguidores se você possui certificação, vínculo profissional com alguma empresa e se os ativos divulgados fazem parte de sua carteira.
“Outra boa ação que a gente prega é se você, finfluencer, tiver falando de um produto, deixe claro quais são os riscos e se o material é válido para qual tipo de investidor. Isso é essencial, pois às vezes o influenciador fala mil maravilhas de um produto e a pessoa pode comprar aquilo que não é adequado para os objetivos dela”, informa Brum.
O Primo Pobre
Eduardo Feldberg, do canal Primo Pobre, é um dos influenciadores de finanças que mais crescem na internet
Reprodução/Instagram
O influenciador de finanças Eduardo Feldberg, do canal Primo Pobre, começou a publicar vídeos na internet porque se sentiu incomodado com a falta de conteúdo de finanças voltado para a população de baixa renda.
“Eu resolvi começar a ensinar sobre coisas que eu faço na minha vida e esse é um dos pontos principais, pois eu ponho em prática absolutamente tudo o que eu ensino antes de apresentar para o meu público”, declara.
Conforme a sexta edição do relatório Finfluence, da Anbima, a página Primo Pobre foi a que mais cresceu no Facebook no último semestre de 2023, com 513% de crescimento. A evolução também foi verificada no Instagram e Youtube, com 199% e 34%, respectivamente.
Sobre a sua repercussão nas redes sociais, Feldberg alega que as pessoas passaram a seguir ele a partir de três pontos: identificação, linguagem acessível e credibilidade.
Ele diz que recebe muita proposta de parceria com empresas de apostas, mas diz negar quase todas, para seguir com seus princípios éticos.
“Até hoje no meu canal eu fiz três publicidades, porque eu não gosto de poluir meu canal com merchan. Eu não divulgo nada se eu sei que tem alguma coisa melhor, mais barato ou de graça. Isso aumenta muito a minha credibilidade”, ressalta o influenciador.
Copom avalia que cenário para inflação se tornou mais desafiador