Ibovespa cai 4,79% e tem o pior mês de janeiro desde 2016; entenda os 5 principais motivos

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Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o desempenho negativo é uma junção de fatores macroeconômicos — como as incertezas sobre os juros nos EUA e a economia mais fraca da China — com o momento de queda de ações de peso no índice, como a Vale. Ibovespa tem o pior mês de janeiro desde 2016
KEVIN DAVID/A7 PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O Ibovespa, principal índice acionário da bolsa de valores brasileira, até tentou uma recuperação no último pregão de janeiro, com alta de 0,28% no dia. Mas o acumulado registrou o mês mais fraco do indicador desde agosto (quando caiu 5,09%) e o pior janeiro desde 2016 (queda de 6,79%).
A bolsa registrou uma queda de 4,79% no primeiro mês de 2024, segundo levantamento antecipado ao g1 por Einar Rivero, CEO da Elos Ayta Consultoria. O ano começa em direção oposta ao final de 2023, quando o Ibovespa registrou uma sequência de recordes e encerrou o mês com valorização de 5,38%.
Parte da queda observada em janeiro pode, inclusive, ser explicada pelo fim do famoso "rali de fim de ano", quando os investidores correm para aproveitar as boas oportunidades do mercado de ações e impulsionam o preço dos papéis. Mas uma série de fatores contribuíram para o desempenho negativo no mês.
Do lado macroeconômico, especialistas ouvidos pelo g1 pontuam:
🏦 As incertezas em relação à redução dos juros nos EUA;
💸 Preocupação com o cenário fiscal brasileiro;
🎢 A dificuldade da China em continuar crescendo.
Já pela visão microeconômica, cabe destacar:
📉 A desvalorização acentuada das ações de commodities, como a Vale;
✈️ O pedido de recuperação judicial da Gol.
Veja mais detalhes a seguir.

Juros nos Estados Unidos
Parece notícia repetida, mas não é. Há meses o mercado financeiro discute qual será o patamar ideal dos juros nos Estados Unidos, e a expectativa é de que a questão permaneça como assunto central até meados do ano.
Bruno Benassi, especialista em ações na Monte Bravo Corretora, explica que alguns dados da economia norte-americana reduziram as expectativas de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) possa iniciar seu ciclo de cortes de juros em março.
O relatório de emprego "payroll", por exemplo, registrou a abertura de 216 mil novas vagas de emprego em dezembro, bastante acima das expectativas dos analistas. Um mercado de trabalho muito aquecido pode continuar gerando aumento de salários e pressão inflacionária sobre a economia.
Benassi destaca que boa parte dos analistas deixou de lado as projeções de corte em março e estimam, agora, que a redução dos juros deve ter início apenas em maio. A mudança de perspectiva e juros mais altos nos EUA por mais tempo faz com que investidores internacionais reduzam ou atrasem suas aplicações em ativos de risco, como o mercado de ações.
A aposta, portanto, se concentra nos títulos públicos americanos, as Treasuries. Enquanto esses títulos tiveram acumularam altas em janeiro, os investidores estrangeiros tiraram cerca de R$ 5 bilhões da bolsa brasileira em 2024.
A economista Ariane Benedito, especialista em mercados de capitais e RI da Esh Capital, destaca que movimento semelhante de aversão a risco aconteceu em fevereiro e agosto de 2023. Em fevereiro, o BC americano elevou suas taxas e sinalizou cautela com a economia do país. O mesmo em agosto.
Foram justamente esses os meses de 2023 com as maiores queda do Ibovespa: 7,49% em fevereiro e 5,09% em agosto, segundo levantamento de Einar Rivero.
Contas do Governo Federal fecham 2023 com rombo de mais de R$ 230 bilhões
Cenário fiscal brasileiro
Para Ariane, a agenda fiscal brasileira, dominada pela preocupação com as contas públicas, será o "principal item de volatilidade ao longo deste ano". A economista destaca que o mercado já começou o ano com preocupações de aumento de gasto público por meio do programa Nova Indústria Brasil anunciado pelo Governo Federal, que prevê R$ 300 bilhões em investimentos para o setor industrial até 2026.
A dúvida sobre quais serão as fontes de financiamento para o programa causaram reação do mercado, em especial depois da notícia de que a União encerrou o ano de 2023 com um déficit primário de R$ 230 bilhões nas contas, o pior resultado desde 2020.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reafirmou que o rombo é fruto da decisão do governo federal de quitar os precatórios que foram "empurrados" pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro para este ano, e que o impacto é temporário nas contas.
Foram mais de R$ 90 bilhões desembolsados somente em precatórios ao final de 2023. O ministro também garantiu que perseguirá a meta de zerar o déficit fiscal neste ano, apesar da desconfiança do mercado financeiro.
Crescimento fraco na China
Entre os aspectos da economia internacional, a economista Ariane Benedito destaca a preocupação global com o crescimento da China. O país asiático cresceu 5,2% no ano passado, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas, mas o número veio abaixo do padrão pré-pandemia.
O Banco Central chinês anunciou na última semana que vai diminuir o compulsório de bancos, como forma de estimular a economia. Trata-se de um dinheiro de reserva, que fica congelado para garantir a sustentabilidade do sistema financeiro do país.
A redução será de 0,5 ponto percentual e deve valer a partir de 5 de fevereiro. Serão liberados quase US$ 140 bilhões (cerca de R$ 688 bilhões) para o mercado.
As dificuldades de manter o crescimento refletem diretamente nos países que têm a China como parceiro comercial importante, que é o caso do Brasil. Crescendo menos, o país reduz a demanda de parceiros comerciais, o que impacta exportações de empresas brasileiras.
Ariane pontua que o setor que mais gera preocupação na China é o imobiliário e uma notícia do começo desta semana ajudou a piorar as expectativas: a construtora Evergrande, uma gigante do setor, teve sua falência decretada pela justiça de Hong Kong na última segunda-feira (29), depois de dois anos tentando renegociar uma dívida estimada em mais de US$ 300 bilhões.
Situações como essa afetam o preço do minério de ferro, já que o setor imobiliário chinês é um dos maiores demandantes da commodity no mundo. Na esteira, sofrem os papéis das empresas exportadoras. No Brasil, entram na conta a CSN, a Gerdau e a Vale, empresa de maior peso do índice Ibovespa.
LEIA TAMBÉM: Por que redução da população da China pelo 2º ano seguido traz preocupação
Justiça Federal condena Vale, BHP e Samarco a indenização de R$ 47,6 bilhões pelo rompimento da Barragem de Fundão
Queda livre da Vale
Sozinha, a Vale representa mais de 13% de toda a carteira do Ibovespa. Qualquer grande oscilação no preço de suas ações traz impacto para cima ou para baixo de todo o resultado do índice. Em janeiro, a mineradora despencou mais de 10%, conforme levantamento de Einar Rivero.
E a queda não está ligada exclusivamente ao momento ruim do setor imobiliário chinês e do minério de ferro. Bruno Benassi, da Monte Bravo, que as especulações sobre a troca de comando da companhia e a multa bilionária que foi aplicada à empresa por conta do desastre de Mariana (MG) também influenciaram.
Notícias dos bastidores de Brasília trouxeram a informação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretendia indicar o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega ao cargo de diretor-presidente da empresa, o que desagradou acionistas e provocou um mergulho nas ações da companhia.
Segundo o blog do Valdo Cruz, Lula desistiu de Mantega, mas não queria abrir mão de indicar alguém ao cargo. No entanto, o governo está sendo aconselhado a não fazer qualquer nova tentativa de interferência na mineradora.
Sobre o desastre de Mariana, a Justiça de condenou a Vale, Samarco e BHP ao pagamento de multas de mais de R$ 47 bilhões pelos impactos ambientais causados pelo rompimento das barragens em 2015.
Gol em recuperação judicial
Por fim, os especialistas concordam que não dá para falar dos principais impactos no Ibovespa em janeiro sem comentar sobre a atual situação da Gol. A companhia aérea entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos para reestruturar suas operações financeiras.
Por conta do processo, a empresa foi excluída do Ibovespa e outros índices na última terça-feira (30), mas a situação contribuiu para a desvalorização da bolsa nos últimos dias, comenta Bruno Benassi.
Os papéis da empresa despencaram quase 70% em janeiro, sendo uma baixa de 27% somente na terça-feira (30).
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Além da Gol, o especialista da Monte Bravo também aponta a Hapvida Notredame, maior empresa de planos de saúde do Brasil, como um dos destaques negativos do mês.
A companhia está sendo investigada pelo Ministério Público de São Paulo sob suspeita de deixar de cumprir liminares para o fornecimento de medicamentos e tratamentos. As ações da Hapvida caíram cerca de 10% em janeiro.
"Apesar de não terem tanta relevância na composição do Ibovespa, são papéis que estão caindo bastante e acabam prejudicando o índice", pontua Benassi.

Na primeira reunião de 2024, Copom faz novo corte na Selic; taxa básica de juros cai para 11,25%

FMI aprova revisão de programa de empréstimo à Argentina e libera US$ 4,7 bilhões
Nesta quarta-feira (31), Comitê decidiu reduzir Selic em 0,5 ponto percentual – mesmo ritmo de redução adotado nas últimas reuniões. Ciclo de cortes teve início em agosto de 2023. Copom faz novo corte na Selic e taxa básica de juros cai para 11,25%
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, nesta quarta-feira (31), reduzir a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, de 11,75% ao ano para 11,25% ao ano.
Este foi o quinto corte seguido na taxa básica de juros, que começou a recuar em agosto de 2023. Decisão foi unânime.
Em 11,25%, a taxa permanece no menor nível desde março de 2022 — quando estava em 10,75% ao ano.
No comunicado divulgado após o encontro, o Comitê voltou a sinalizar que poderá cortar novamente a Selic neste mesmo patamar (0,5 ponto percentual) nos próximos encontros (leia mais abaixo).
"Em se confirmando o cenário esperado, os membros do Comitê, unanimemente, anteveem redução de mesma magnitude nas próximas reuniões e avaliam que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário", diz o texto.
O Comitê também reforçou a importância de executar as metas fiscais já estabelecidas "para a ancoragem das expectativas de inflação e, consequentemente, para a condução da política monetária" – a mesma sinalização presente nas últimas notas do Copom.
Para 2024, o governo busca um déficit zero, ou seja, um equilíbrio nas contas públicas, sem resultado negativo nem positivo. No ano passado, no entanto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) levantou dúvidas sobre o tema ao dizer que "dificilmente" a meta zero seria atingida.
O Copom é formado pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e por oito diretores da autarquia. A reunião desta semana foi a primeira com a nova composição do colegiado.
Dois diretores indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no ano passado — Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira — tomaram posse no início de janeiro, após serem aprovados pelo Senado Federal.
Reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil.
Raphael Ribeiro/BCB
A Selic é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo BC para controlar a inflação. A taxa influencia todas as taxas de juros do país, como as taxas de juros dos empréstimos, dos financiamentos e das aplicações financeiras.
Comunicado do Copom
No comunicado, o Comitê avalia que o ambiente externo permanece "volátil", "marcado pelo debate sobre o início da flexibilização de política monetária nas principais economias".
Nesta quarta-feira, o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, manteve os juros do país inalterados, em uma faixa de 5,25% a 5,50% ao ano, mas sinalizou uma possível redução da taxa básica caso a inflação continue caindo nos próximos meses.
"O Comitê avalia que a conjuntura, em particular devido ao cenário internacional, segue incerta e exige cautela na condução da política monetária", aponta o comunicado do Copom.
No caso do Brasil, o Copom estima que a inflação ao consumidor "manteve trajetória de desinflação".
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) — considerado a prévia da inflação oficial do país — registrou uma alta de 0,31% nos preços em janeiro. O índice teve uma leve desaceleração de 0,09 ponto percentual (p.p.) na comparação com o mês anterior, quando teve alta de 0,40% para dezembro.
Por outro lado, o comitê diz que o cenário ainda "demanda serenidade e moderação na condução da política monetária".
"O Comitê reforça a necessidade de perseverar com uma política monetária contracionista até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas".
Para definir a taxa básica de juros e tentar conter a alta dos preços, no sistema de metas de inflação, o BC faz projeções para o futuro.
Neste momento, a instituição já está mirando também para o início de 2025. Isso ocorre porque as mudanças na taxa Selic demoram de seis a 18 meses para ter impacto pleno na economia.
A meta de inflação deste ano, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), é de 3% e será considerada cumprida se oscilar entre 1,5% e 4,5%.
A partir de 2025, o governo mudou o regime de metas de inflação, e a meta passou a ser contínua em 3%, podendo oscilar entre 1,5% e 4,5% sem que seja descumprida.
Taxa Selic: entenda o que é a taxa básica de juros da economia brasileira
Reuniões em 2024
O Copom costuma se reunir a cada 45 dias para definir o patamar da Selic. Em 2024, o colegiado vai se reunir mais sete vezes:
19 e 20 de março
7 e 8 de maio
18 e 19 de junho
30 e 31 de julho
17 e 18 de setembro
5 e 6 de novembro
10 e 11 de dezembro

Brasil continua com o 2º maior juro real do mundo após novo corte da Selic; veja ranking

País deixou a liderança em dezembro, quando foi superado pelo México em levantamento do MoneYou. A Argentina, que enfrenta uma inflação altíssima, ocupa a última posição. Taxa Selic: entenda o que é a taxa básica de juros da economia brasileira
O Brasil continua a ter o segundo maior juro real do mundo após novo corte da taxa básica de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom). O juro real é formado, entre outros pontos, pela taxa de juros nominal do país subtraída a inflação prevista para os próximos 12 meses.
O Banco Central (BC) decidiu nesta quarta-feira (31) reduzir a Selic em 0,50 ponto percentual (p.p.), para 11,25% ao ano. Assim, segundo levantamento compilado pelo MoneYou, os juros reais do país ficaram agora em 5,95%. O líder é o México, com taxa real de 6,49%.
Na última divulgação, em 13 de dezembro, o Brasil já tinha deixado o topo da lista. A combinação de inflação menor e cenário externo positivo ajudou no fechamento de uma taxa real de juros mais baixa, informou o MoneYou.
A Argentina ficou em último lugar no ranking. Apesar de ter as taxas nominais mais altas da lista, de 100% ao ano (veja mais abaixo), o país também enfrenta um quadro de inflação altíssima, o que acaba derrubando as taxas reais.
Veja abaixo os principais resultados da lista de 40 países.

um anunciou m da taxa básica de juros, de 0,50 p.p.. Com a redução, a Selic ficou em 12,25% ao ano.
Quinto corte seguido de juros
Nesta quarta-feira, o Copom anunciou um novo corte da taxa básica de juros, de 0,50 p.p.. Com a redução, a Selic ficou em 11,25% ao ano.
Esse foi o quinto corte consecutivo da taxa básica por parte do colegiado, após a Selic ter se mantido em 13,75% ao ano por cerca de um ano.
Juros nominais
Considerando os juros nominais (sem descontar a inflação), a taxa brasileira subiu para a 5ª posição. Veja abaixo:
Argentina: 100%
Turquia: 45%
Rússia: 16%
Colômbia: 13%
Brasil: 11,25%
México: 11,25%
Hungria: 10%
Chile: 8,25%
África do Sul: 8,25%
República Checa: 6,75%
Filipinas: 6,50%
Indonésia: 6%
Polônia: 5,75%
Hong Kong: 5,75%
Estados Unidos: 5,50%
Índia: 5,50%
Reino Unido: 5,25%
Canadá: 5%
Israel: 4,50%
Alemanha: 4,50%
Áustria: 4,50%
Espanha: 4,50%
Grécia: 4,50%
Holanda: 4,50%
Portugal: 4,50%
Suécia: 4,50%
Bélgica: 4,50%
França: 4,50%
Itália: 4,50%
China: 4,35%
Austrália: 4,35%
Dinamarca: 3,60%
Singapura: 3,52%
Coreia do Sul: 3,50%
Malásia: 3%
Tailândia: 2,26%
Taiwan: 1,88%
Nova Zelândia: 0%
Japão: -0,10%
Suíça: -0,75%

Copom: entenda por que o BC não acelerou o corte de juros e quais os recados para o futuro da Selic

FMI aprova revisão de programa de empréstimo à Argentina e libera US$ 4,7 bilhões
Apesar de a inflação de 2023 ter fechado o ano dentro da meta e de o governo ter reiterado o compromisso com a meta de zerar do déficit neste ano, comitê voltou a reforçar que novos cortes devem seguir no mesmo ritmo de 0,5 ponto percentual nas próximas reuniões. Banco Central cortou pela taxa básica de juros pela quinta vez consecutiva.
Raphael Ribeiro/BCB
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou nesta quarta-feira (31) mais um corte na taxa básica de juros. A Selic recuou de 11,75% para 11,25% ao ano, na quinta queda consecutiva.
A redução de 0,5 ponto percentual não foi novidade para os economistas do mercado financeiro. Desde agosto do ano passado, quando iniciou o ciclo de cortes de juros, o BC tem sido cauteloso e reduzido a Selic sem acelerar o ritmo, com cortes constantes.
As atenções estavam, mais uma vez, no tom do comunicado. O BC também tem sinalizado constantemente a importância de uma inflação mais controlada e de menos incertezas no quadro fiscal para a redução das taxas básicas do país.
Com o governo sinalizando estar empenhado em buscar alternativas para aumentar a arrecadação e com uma inflação que conseguiu encerrar o ano passado dentro da meta pela primeira vez desde 2020, era possível esperar que o ritmo de redução dos juros aumentasse. Mas não.
Para o BC, a decisão desta quarta-feira considerou que o processo de desinflação continuou a evoluir no país, que a atividade econômica brasileira segue consistente com o cenário de desaceleração antecipado pelo Copom e que o ambiente externo continua a "exigir cautela por parte dos países emergentes".
Assim, o Copom voltou a reforçar que novos cortes da Selic devem vir na mesma magnitude nas próximas reuniões, destacando que "esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário."
Nesta reportagem você vai entender:
Por que o Banco Central não deve acelerar o ritmo de cortes de juros por aqui?
Quais os recados do Copom para o futuro da Selic?
Taxa Selic: entenda o que é a taxa básica de juros da economia brasileira
Por que o BC não deve acelerar o corte de juros?
De acordo com especialistas ouvidos pelo g1, o quadro macroeconômico brasileiro dá sinais de melhora, mas “situações de risco” ainda impedem que o Copom acelere o ritmo de cortes da Selic. São elas:
a necessidade de ajustes no campo fiscal e de previsibilidade no longo prazo;
os riscos inflacionários no curto prazo;
as decisões do Fed e seus impactos no câmbio;
o preço das commodities.
➡️ Ajustes no campo fiscal
Segundo o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, falta um plano para o corte de gastos apesar de o governo federal ter buscado formas de aumentar a arrecadação, mirando o déficit zero — ou seja, que o governo consiga gastar o mesmo montante que arrecadar ao longo do ano.
“O governo tem trabalhado pelo aumento das receitas, mas ainda não apresentou nenhum plano para contenção de despesas. Então, esse ainda é um grande risco, mesmo que o cenário tenha melhorado diante da expectativa de um déficit menor para este ano”, diz Agostini.
O economista explica que não há uma medida estrutural de médio e longo prazo para controle dos gastos públicos, mesmo que o governo consiga cumprir a meta de déficit zero em 2024. Esse cenário, afirma Agostini, acaba afetando as decisões sobre a política monetária, que são pensadas para períodos mais distantes.
“A política fiscal do país ainda não tem uma previsibilidade boa para acima de dois, cinco ou 10 anos. Então, esse é mais um risco considerado pelo Banco Central”, completa.
➡️ Riscos inflacionários de curto prazo
Apesar de fechar 2023 dentro da meta, a inflação ainda passa por uma dinâmica que preocupa o BC. No curto prazo, por exemplo, os especialistas sinalizam que há riscos de aumento de preços no setor de serviços, que costumam ser reajustados ao menos pela inflação dos últimos 12 meses — a chamada inércia inflacionária.
“Essa inércia naturalmente vai se reduzindo na hora de reajustar os preços dos serviços. No entanto, ainda é uma preocupação, porque a base da inflação ainda está em um nível de reajuste alto. Essa inércia ainda se mantém um pouco”, diz Agostini.
Para Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, a melhora desses indicadores seria um dos fatores necessários para que o BC pudesse considerar um aumento no ritmo de cortes.
"Não que a composição inflacionária esteja ruim, mas está condizente com o ritmo atual de aperto monetário", afirma.
Copom faz novo corte na Selic e taxa básica de juros cai para 11,25%
➡️ Decisões do Fed e os impactos no câmbio
Outro ponto de atenção para o Banco Central brasileiro é o setor externo. Isso porque ainda há uma preocupação muito forte com o mercado de trabalho nos Estados Unidos, que segue bastante aquecido.
Em síntese, um mercado de trabalho mais aquecido significa salários mais altos e mais dinheiro em circulação, o que tende a pressionar a inflação — e, consequentemente, exigir uma política monetária mais restritiva por parte do Federal Reserve (Fed, o BC norte-americano).
Nesta quarta-feira (31), o Fed decidiu mais uma vez manter as taxas básicas de juros do país no intervalo de 5,25% e 5,50% ao ano, no maior patamar desde 2001. A decisão já era esperada pelo mercado e as atenções, mais uma vez, se voltaram para o comunicado divulgado pela instituição.
De acordo com o estrategista-chefe da Guide Investimentos, Alex Lima, a principal mensagem do BC norte-americano foi a sinalização de que o Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto) não deve começar a cortar os juros dos EUA até que a inflação do país esteja no nível de 2%, que a meta da instituição.
“É como se fosse um código dizendo que março está fora de cogitação, porque dificilmente teremos uma inflação de 2% até lá. Ainda estamos vivendo um momento de pressão inflacionária, principalmente por conta da ruptura de cadeias globais, tanto no Mar Vermelho quanto no Panamá”, explica Lima.
Em meados de janeiro, a ferramenta FedWatch, do CME Group, indicava que a maioria dos investidores (61%) esperava um corte de juros em março por parte do Fed. Após a decisão e o comunicado da instituição nesta quarta, no entanto, a maior parte das apostas de corte (quase 90%) passaram para maio.
Juros mais elevados nos EUA aumentam a rentabilidade das Treasuries americanas (títulos públicos norte-americanos), refletindo nos mercados de ações e no dólar. Com os títulos da maior economia do mundo com maior rentabilidade, a tendência é uma maior migração de recursos para o país.
“Isso gera uma mudança de fluxo de capitais, que pode se refletir, por exemplo, na questão do câmbio”, acrescenta Agostini, em referência à alta do dólar frente ao real.
➡️ Preços das commodities
Segundo os especialistas, esses reflexos do câmbio são percebidos principalmente nos preços das commodities — mais um ponto de risco observado pelo Banco Central. Com o petróleo mais caro, por exemplo, há elevação do preço da gasolina e do diesel, e uma consequente elevação do custo do frete, gerando inflação sobre alimentos e outros produtos.
“Já há especulações no mercado de que o petróleo pode retomar uma alta para algo em torno de US$ 90 e US$ 100. Se isso acontecer, sabemos que o impacto na inflação é muito forte”, diz Agostini, da Austin Rating.
IPCA-15: preços sobem 0,31% em janeiro, puxados pelos alimentos
Quais os recados do Copom para o futuro da Selic?
Além de manter a sinalização de que novos cortes de 0,5 ponto percentual devem ser o padrão para as próximas reuniões, o Copom também indicou no comunicado que deve continuar atento ao ambiente externo, e ao quadro fiscal e inflacionário no Brasil.
O colegiado informou que seus cenários de análise para a inflação ainda apresentam fatores de risco tanto para um aumento quanto para uma queda de preços.
➡️ Entre os riscos de alta, o comunicado destacou:
uma maior persistência das pressões inflacionárias globais;
uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais apertado.
➡️ Já entre os fatores que podem levar a uma redução de preços, estão:
uma desaceleração da atividade econômica global mais acentuada do que a projetada;
os impactos do aperto monetário sincronizado sobre a desinflação global se mostrarem mais fortes do que o esperado.
Segundo Veronese, da B.Side Investimentos, a sinalização do Copom vale para as próximas duas reuniões do colegiado, que acontecerão em março e maio — período em que a economia também deve sentir ainda mais os impactos da política monetária mais restritiva.
"Vemos o início de um processo de desaceleração. Mas é um movimento lento porque, no momento de alta juros, também tivemos políticas fiscais de estímulo ao consumo e crescimento, muito por conta das eleições", afirma a economista.
Veronese explica que as medidas trazidas pelo governo entre 2022 e 2023 ainda tinham impactos na atividade até poucos meses atrás, e que o impacto de juros altos ainda se reflete na economia.
"Existe um delay de repasse da política monetária para a atividade que tende a ser de seis a nove meses. Então acredito que só daqui a três ou quatro meses a gente comece a ver esses cortes de juros fazendo efeito na economia real", acrescenta.
O Copom também reafirmou no comunicado “a importância da execução das metas fiscais”, destacando que o atual cenário ainda “demanda serenidade e moderação na condução da política monetária”.
O BC ainda entendo que a economia passa por um estágio “mais lento” do processo desinflacionário, por uma “reancoragem apenas parcial” das expectativas de inflação e por um quadro global ainda “desafiador”.
Por fim, o Copom ainda destacou que a magnitude total do ciclo de flexibilização de juros ao longo do tempo dependerá da evolução da dinâmica inflacionária, das expectativas e projeções de inflação, do hiato do produto (indicador que mede as oscilações cíclicas da economia) e do balanço de riscos.

FMI aprova revisão de programa de empréstimo à Argentina e libera US$ 4,7 bilhões

FMI aprova revisão de programa de empréstimo à Argentina e libera US$ 4,7 bilhões
Segundo o FMI, liberação de crédito permite apoio aos esforços do governo para reestabelecer a situação macroeconômica. Fundo alertou que situação é desafiadora. O presidente da Argentina, Javier Milei, durante discurso no Fórum de Davos nesta quarta (17)
Gian Ehrenzeller/Keystone via AP
O Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovou, nesta quarta-feira (31) uma revisão no programa de empréstimo de US$ 44 bilhões à Argentina, permitindo a liberação de US$ 4,7 bilhões (R$ 23,3 bilhões).
A liberação imediata de cerca de US$ 4,7 bilhões permite "apoiar os claros esforços políticos das autoridades para restabelecer a estabilidade macroeconômica", afirmou o FMI em um comunicado.
Desde que assumiu o cargo há menos de dois meses, Milei desvalorizou o peso em 50% e iniciou um processo de liberalização de preços.
O presidente argentino também pretende modificar centenas de normas e leis para tentar reverter uma crise que mantém mais de 45% dos argentinos na pobreza, com uma inflação anual de 211% em 2023.
O acordo com o FMI representa um apoio significativo a Milei, justamente enquanto o Congresso debate um pacote polêmico de reformas ultraliberais.
"A nova administração está tomando medidas audaciosas para restaurar a estabilidade macroeconômica", afirmou a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva.
O FMI disse ainda que a Argentina está estabelecendo um plano com uma forte âncora fiscal, além de políticas para redução da inflação e reconstrução de reservas.
Por outro lado, o Fundo Monetário alertou que o caminho para a estabilização será desafiador.
A aprovação do conselho para a sétima revisão do acordo de crédito com a Argentina eleva para cerca de US$ 40,6 bilhões (R$ 201 bilhões) a quantia concedida ao país, como parte de um programa de ajuda de US$ 44 bilhões (R$ 218 bilhões).
A Argentina enfrenta uma crise com escassez de divisas, um alto endividamento em um contexto de praticamente nenhum acesso aos mercados internacionais de crédito.
Na atualização das Perspectivas da Economia Mundial, o FMI estimou na terça-feira (30) que a situação econômica do país será bastante pior do que o previsto este ano.
Em outubro, a instituição financeira previa um crescimento de 2,8% para a economia argentina em 2024, mas agora projeta uma contração de 2,8%.
Javier Milei da Argentina enfrenta 1º grande teste no Congresso com votação de projeto de lei 'ómnibus'
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